terça-feira, agosto 22, 2017

Black Hole Sun

Ponte Ravenel em Charleston, Carolina do Sul

sábado, agosto 19, 2017

Do racismo, da intolerância e do medo perante o desconhecido

A intolerância, sugere [Umberto] Eco, «chega antes de qualquer doutrina. Assim, a intolerância possui uma raiz biológica, manifesta-se no reino animal sob a forma de territorialidade, baseia-se em reacções emocionais que são, frequentemente, superficiais – não conseguimos suportar aqueles que são diferentes de nós, por a sua pele ser de outra cor; por falarem numa língua que não compreendemos; por comerem sapos, cães, macacos, porcos ou alho; por fazerem tatuagens…»  

Umberto Eco citado por Zygmunt Bauman, “Sintomas em busca de um objecto e de um nome” in O Grande Retrocesso, Objectiva, 2017, pág. 38

"No one is born hating another person because of the color of his skin or his background or his religion..."

Nelson Mandela citado por Barack Obama no Twitter a 13 de Agosto, em reacção aos confrontos e agressões de Charlottesville entre supremacistas brancos e manifestantes anti-racismo. @BarackObama

***

O racismo não é inato, como dizia Mandela, o que faz dele uma questão cultural. O racismo encontra, no entanto, solo fértil nesse sentimento de intolerância com raízes biológicas, a que se refere Eco, e que cada um de nós sente de forma primária e superficial. Há quem explore esse medo perante o desconhecido, essa intolerância, para incutir no outro a doutrina que proclama a superioridade racial de uns em relação aos outros. Saber que o racismo tem raízes em reacções emocionais superficiais é meio caminho andado para erradicá-lo. Os demagogos porém, como refere Bauman, exploram esse medo perante o desconhecido para expandirem ideologias de ódio:

Os demagogos fundamentalistas, integralistas, racistas e etnicamente chauvinistas podem, e precisam de, ser acusados de alimentar uma «intolerância rudimentar» pré-existente e de com ela lucrar, propagando, assim, as suas reverberações e exacerbado a sua morbidez – mas não podem ser acusados de causar o fenómeno da intolerância.

Onde procurar, então, a origem e a força motriz desse fenómeno? Esta última, a meu ver, será o medo perante o desconhecido – de que os «estranhos» ou «forasteiros» (por definição insuficientemente conhecidos, muito menos compreendidos, e praticamente imprevisíveis nas suas condutas e reacções face às nossas próprias jogadas) são o símbolo mais proeminente, o mais tangível, porque próximo e notório.

Zygmunt Bauman, “Sintomas em busca de um objecto e de um nome” in O Grande Retrocesso, Objectiva, 2017, pág. 39.


Curiosamente esse medo perante o desconhecido também tem sido ao longo da história explorado para fins de gestação e propagação religiosa, estando na raiz das religiões que dividem os seres humanos em diferentes credos. O medo perante o desconhecido é hoje ainda mais dramático, pois o contexto social e económico em que vivemos aponta no sentido da individualização, quebra dos laços comunitários e sociais e atomização, em que cada indivíduo se apresenta aos olhos do outro, cada vez mais, como um elemento estranho e suspeito, alguém que pode ou não encerrar todos os males do mundo (é uma incerteza, um risco), como uma caixa de Pandora, ou um terrorista. E a questão torna-se ainda mais paradoxal quando vivemos na era da omnipresença informacional. Cada vez mais informados mas desamparados perante o desconhecido à nossa porta, na nossa rua, ao nosso lado.

segunda-feira, agosto 14, 2017

"Trump" ad nauseam

Há quem se questione, perplexo, acerca das razões que levaram Trump a vencer as eleições americanas. Como foi possível? Há quem responda, mas a questão volta continuamente a ser colocada, o que prova que as respostas nunca chegam a ser conclusivas ou cabais. A perplexidade ainda persiste em muitos círculos de opinion makers que falam nas cadeias noticiosas mundiais (CNN, BBC, Sky News, etc.). Há quem considere Trump genial por conseguir ser notícia o tempo todo. Propositadamente ou não, ele tem a capacidade de ser notícia a um ritmo horário contínuo. O seu nome é pronunciado dezenas de vezes por hora, para não dizer centenas, em canais noticiosos como a CNN. Experimente o leitor ligar esse canal a qualquer sinal horário, quando vão para o ar as highlights. Era assim há um ano quando a campanha eleitoral americana estava no auge e os pivots da CNN lhe moviam um ataque cerrado, mas também é assim agora. O seu nome é matraqueado a todo o momento. "Trump" ad nauseam. "Trump" no prime time. Trump, a obsessão da CNN. Inadvertidamente o canal televisivo tornou-se o maior anunciador publicitário da marca "Trump" ainda que a maioria das notícias sobre ele não o favoreçam. Ainda assim publicitam-no. Ironicamente aparecem depois os opinion makers no mesmo canal a questionarem-se espantados acerca das razões que levaram Trump à vitória.


Não terá o facto de o canal manter a marca “Trump” no ar o tempo todo exercido um efeito em muitos telespectadores acríticos, da mesma forma que a publicidade repetitiva o faz relativamente a uma determinada marca de um produto que se quer vender?

sexta-feira, agosto 11, 2017

Nestas férias estou a ler…

…romances de cavalaria.


Quem diria que uma pechincha (custou apenas 2€ na livraria da Europa-América) daria um tão grande prazer de leitura. O livro da Europa-América está muito bem traduzido embora tenha algumas gralhas. Trata-se, no entanto, de uma edição de 1981. 

…ensaios de política e economia.


Gostei de ler acerca das origens do neoliberalismo, da incompatibilidade entre integração económica profunda, soberania nacional e política democrática ("a democracia, a soberania política e a integração económica global são mutuamente incompatíveis; entre as três é preciso escolher duas") e a desmercadorização do bem-estar...Mas existem muitos ensaios por ler. A leitura continua. 


A Segunda Guerra Mundial (a perspectiva inglesa).



É uma perspectiva inglesa com certeza. Com Martin Gilbert os ingleses saem sempre bem na fotografia. Mas é uma leitura interessante.

E falta a poesia. Mas as férias ainda não acabaram.

sábado, julho 22, 2017

O triunfo dos algoritmos

Quanto mais os trabalhadores funcionam como apêndices das máquinas com que trabalham, menos liberdade de manobra têm, menos importantes são as suas competências e mais vulneráveis se tornam ao desemprego tecnológico. É isso que explica a oposição frequentemente forte dos trabalhadores à introdução das novas tecnologias.

David Harvey, O Enigma do Capital, Bizâncio, 2011, pág. 112

What will happen to the job market once artificial intelligence outperforms humans in most cognitive tasks? What will be the political impact of a massive new class of economically useless people? What will happen to relationships, families and pension funds when nanotechnology and regenerative medicine turn eighty into the new fifty? What will happen to human society when biotechnology enables us to have designer babies, and to open unprecedented gaps between rich and poor?

Yuval Harari, Homo Deus: A Brief History of Tomorrow, HarperCollins, 2017
(realce nosso)

***


Já não nos bastavam as ameaças das alterações climáticas, do terrorismo, da proliferação nuclear, entre outras. De acordo com Yuval Harari, sobre todos pairará a ameaça da inutilidade e do desemprego tecnológico. O homem enquanto trabalhador tornar-se-á obsoleto. Cada um de nós age e pensa, diz ele, de acordo com uma espécie de algoritmo bioquímico que será ultrapassado pelos algoritmos artificiais inteligentes que criámos. A criação ultrapassará o criador. A raça humana será extinta pela máquina inteligente. Os futuros humanos não serão humanos, serão outra coisa qualquer. Uma espécie de super cyborg, de homem-máquina, quase imortal. Homo deus em vez de Homo sapiens. Qualquer resistência em relação às novas tecnologias, das quais estamos cada vez mais dependentes, será inútil. Qualquer resistência fará de nós luditas do século XXI. E como sabemos os luditas não foram capazes de travar as máquinas.

sexta-feira, julho 21, 2017

Martin Landau morreu na semana passada

Martin Landau (1928-2017)

Martin Landau morreu na semana passada. Partiu o lendário comandante da base lunar Alfa, do Espaço 1999, série televisiva que nos encantou nos anos 70, com as suas águias, naves de descolagem vertical, com os seus intercomunicadores e as suas portas automáticas que abriam com um simples toque num telecomando, e mais muito mais. Por vezes havia monstros invasores nos corredores da base e um ecrã gigante na sala de comando através do qual o comandante comunicava com alienígenas e com os pilotos das águias. Brincávamos ao Espaço 1999 nas traseiras do prédio. Um era o comandante, mas havia enfermeiras, pilotos, médicas e cientistas… Aprendíamos assim. Quase tudo se concretizou em 1999: temos aviões de descolagem vertical e telemóveis, portas que abrem à nossa aproximação, ecrãs tácteis que também nos mostram quem está a falar connosco, computadores… Mas falta-nos uma base lunar permanente. Uma base na Lua, onde o céu é sempre estrelado. Na Lua, onde tudo parece mais perto do cosmos.

A morte de Martin Landau não nos passou despercebida.

domingo, julho 16, 2017

Notícias da sexta extinção: o gradual desaparecimento dos leões e de outros grandes mamíferos

Scientists analysed both common and rare species and found billions of regional or local populations have been lost. They blame human overpopulation and overconsumption for the crisis and warn that it threatens the survival of human civilisation, with just a short window of time in which to act.



Assistimos hoje ao rápido desaparecimento dos grandes mamíferos da superfície da Terra, entre os quais carnívoros e predadores como o leão, noticia o The Guardian. A sua presença no planeta não se coaduna com o crescimento demográfico do homo sapiens sapiens e com a crescente necessidade de mais espaço que suporte as suas infinitas necessidades.

Historicamente o leão estava presente nas regiões onde surgiu a civilização e as primeiras aglomerações urbanas, na Mesopotâmia. Foi caçado pelos assírios e foi representado pelos caçadores-recolectores daquela região, muito antes disso. Actualmente, na Ásia, está confinado a uma pequena bolsa na floresta de Gir, no noroeste da Índia.

No séc. VII a.C. o leão era caçado pelos assírios no norte da Mesopotâmia, região que corresponde actualmente ao norte do Iraque e sudeste da Turquia.

Leão representado num pilar de Göbekli Tepe, presumivelmente 
um centro de culto de caçadores-recolectores e um embrião dos
 primeiros assentamentos urbanos, com cerca de 12 000 anos.

segunda-feira, julho 10, 2017

Revoluções políticas e revoluções científicas

Thomas Kuhn (1922 - 1996)
As revoluções políticas começam com um sentimento crescente, habitualmente restringido a um segmento da comunidade política, de que as instituições existentes deixaram de poder enfrentar adequadamente os problemas colocados pelo ambiente que elas próprias em parte criaram. De modo muito semelhante, as revoluções científicas começam por um sentimento crescente, também geralmente restringido a uma pequena subdivisão da comunidade científica, de que um paradigma existente deixou de funcionar adequadamente na exploração de um aspecto da natureza para o qual esse próprio paradigma tinha indicado o caminho.

Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, Guerra e Paz, 2009, pp. 133-134

sábado, julho 08, 2017

quinta-feira, julho 06, 2017

Substancial, incidental e fatal

Como brincam com as palavras os políticos.

A coisa é muito grave, mas releva do campo do incidental, não do substancial. Há que distinguir as coisas e os nossos aliados sabem distingui-las, garante o ministro Augusto Santos Silva, ou seja, trata-se de um incidente muito grave, o dos paióis, mas não é substancial.

Contudo poderá vir a ser fatal. É aí que reside o problema.

Um poema de O'Neill

A força do hálito

A força do hálito é como o que tem que ser.
E o que tem que ser tem muita força.

Vai (ou vem) um sujeito, abre a boca e eis que a gente,
que no fundo é sempre a mesma,
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado,
que no fundo é sempre o mesmo.

Sovacos pompeando vinagres e bafios,
não são nada --bah...-- em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.

        "Ai onde transpira agora
         o bom sovaco de outrora!"

Virilhas colaborando com parentesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito) maravirilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos, nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.

Mas o mau hálito é pior que a palavra
sobretudo se não for da tua lavra.

Da malvada, da cárie ou, meudeus, do infinito,
o mau hálito é sempre, na narina,
como o baudelaireano, desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria.

                          Alexandre O'Neill (1969)

***

Mais poemas de Alexandre O'Neill, e mais, muito mais: aqui.

segunda-feira, julho 03, 2017

Foi você que pediu uma granada

Imagine que está a comer tranquilamente num restaurante e lá para dentro rebola uma das granadas furtadas em Tancos. Não se preocupe, pois o ministro assevera-nos que se trata apenas de uma granada ofensiva. As defensivas são mais letais.

O ministro da Defesa ainda está sentado no seu lugar?

O Chefe do Estado-Maior do Exército ainda está sentado no seu lugar?

O que aconteceu em Tancos é inadmissível. Não é apenas grave, é gravíssimo.

Seria bom que as armas fossem descobertas rapidamente, não interessa onde, antes que rebentem por aí, ou por aqui.

Outra coisa: colocar Tancos dentro do mesmo saco que Pedrógão Grande quanto a apuramento de responsabilidades e suas consequências políticas, como já ouvi de alguns comentadores, é pura desonestidade intelectual. Mas enfim, a politiquice cala mais fundo e estes senhores não resistem à tentação e à pulhice.

sábado, julho 01, 2017

Insucesso escolar e pobreza


Ora é aqui que está a questão. Deviam lembrar-se disto os que fazem a leitura dos rankings das escolas, comparando resultados entre o ensino privado e o ensino público, apontando baterias a este último.

Portugal, país mui católico, se atendermos ao número de crentes, é um dos países da Europa onde as desigualdades sociais entre ricos e pobres é o mais alargado e onde a pobreza grassa. Os doutos que apontam o dedo às escolas públicas e ao ensino que lá se presta, baseando-se nos resultados dos exames nacionais, deviam lembrar-se desta realidade.

Neste país mui católico parece que são precisos pobrezinhos para que haja caridadezinha. Para isso os pobrezinhos dão muito jeitinho.

sexta-feira, junho 23, 2017

O deboche da reportagem

Não poderia deixar de estar mais de acordo com o que escreve António Guerreiro, aqui. Nem há palavras. António Guerreiro disse-as todas, bem ditas e pesadas. É o que penso sobre grande parte das reportagens da tragédia de Pedrogão Grande. Um deboche de reportagens que se converteu num regabofe ao voyeurismo boçal.

Até se arranjou um nome hollywoodesco para a estrada EN 236-1:  "A Estrada da Morte". 

Vivemos na sociedade do espectáculo no seu pior. (*)

Muitos jornalistas deveriam cultivar-se mais, estudar mais e cuidar das ideias. Deveriam voltar a estudar Ética nos bancos da Universidade, se é que alguma vez a estudaram, para que se respeitassem mais e nos respeitassem, que gostamos de ser e de estar informados, com qualidade.

Afinal informar também é educar. Mas como poderão os jornalistas educar se não forem bem educados? Alguns, inadvertidamente, ou talvez não, parecem conceber a informação como se de um espectáculo se tratasse e as reportagens como se fossem uma espécie de filmes de hollywood.

----------

(*) Lembrei-me de uma notícia de há muitos anos sobre a indecisão acerca de um título a colocar num novo filme do 007. Os que escolhiam o título acabaram por concluir que se as palavras "morrer" ou "matar", ou qualquer outra associada à morte, integrassem o título do filme, mais gente iria vê-lo. Era uma questão comercial. E assim lá escolheram o título: Tomorrow Never Dies ou Die Another Day (foi um destes, não posso precisar qual). 

sábado, junho 17, 2017

Um súbito despertar em sobressalto


O último teste para esta projecção da Terra-mãe na totalidade mundana começou com a crise ecológica da Terra, que é, simultaneamente, a primeira crise da humanidade. Esta crise actual da mundaneidade vai mais fundo do que as que surgiram sob a pressão das religiões de redenção e da antiga apocalíptica. Porque para a humanidade actual torna-se, pela primeira vez, verdadeiramente visível na sua totalidade a sua casa comum real no momento da sua destruição. Na tentativa dos povos de mudarem para ela, descobrem-na como algo que já está inexoravelmente em vias de devastação. Esta crise da mundaneidade põe à partida em questão o poder-ser-casa da Terra e o poder habitar da humanidade.

Peter Sloterdijk, O Estranhamento do Mundo, Relógio D’Água. 2008. Pág. 218.

***

Suprema ironia. No preciso momento em que, pela primeira vez, vislumbramos o planeta que nos acolhe, na sua totalidade, tomamos consciência da devastação que o consome e que nos poderá vir a consumir. É como se acordássemos subitamente, sobressaltados, numa casa em chamas. É preciso fazer algo para nos salvarmos e salvarmos o lar “que já está inexoravelmente em vias de devastação”.

Suprema ironia. Quando dormíamos, o nosso sono era reparador e profundo, alheio a todos os perigos. Foi preciso acordar para nos apercebermos da nossa fragilidade e dos efeitos secundários dos actos que cometíamos enquanto sonâmbulos. Agora toda a Terra é a nossa circunstância, sem a qual não há Eu que resista. Vivemos também uma crise de mundaneidade (e não só ecológica), pois só quando o Homem vislumbra a Terra na sua totalidade se apercebe da própria Humanidade que o planeta encerra. Não é apenas a Terra que é vislumbrada na sua totalidade, mas também a Ecúmena.

Poderíamos colocar aqui algumas objecções ao parágrafo do Sloterdijk: quão inexorável é esse processo de devastação? “Inexorável” é uma palavra forte, em rota de colisão com a nossa civilização que teima em resistir e em confrontar tudo quanto é desafio, em particular os desafios que ameaçam a sua própria existência. Será assim tão inexorável a devastação ao ponto de ser irreversível? Logo agora que tomámos consciência da devastação, é tarde demais para agir? Neste momento em que acordámos, vamos já assumir que o planeta “está inexoravelmente em vias de devastação”? Ou estaremos negação, não querendo assumir a inexorabilidade de um apocalipse?

Só um deus pode salvar-nos, disse um filósofo do pessimismo. Pessimismo ou realismo?

A última frase do parágrafo é muito questionável num dos seus termos: não é “o poder-ser-casa” da Terra que está em questão. A Terra já deu provas do seu “poder-ser-casa”. O que está em causa é o poder habitar da Humanidade. O que está em causa é o habitante e não a casa. A casa, para dizer a verdade, já teve outros habitantes, noutras circunstâncias.


quarta-feira, junho 14, 2017

O "charuto" vertical











Hoje as câmaras do mundo estiveram focadas num prédio londrino de 24 andares que ardeu por completo, como um charuto vertical.

***

O urbanismo associado a concepções de alojamento massivo de população desfavorecida em altos edifícios residenciais, há muito que deu mostras de ser um urbanismo falhado que não se adequa à vida de uma cidade que se quer relacional. Os mais pobres são alojados e arrumados em pombais humanos, onde os riscos se acumulam com o passar do tempo – e às vezes nem é preciso muito tempo – até redundarem em catástrofes. No Reino Unido já era clássico o caso do colapso de Ronan Point, Caning Town, no Borough de Newham em Londres, em 1968, causado por uma explosão num fogão a gás (tinham passado apenas dois meses após a chegada dos primeiros moradores). A tragédia de hoje ultrapassa, de longe, a do colapso de Ronan Point. 

terça-feira, junho 13, 2017

That 2,000 Yard Stare

Tom Lea, That 2,000 Yard Stare, 1944.

Daqui.

***

Adeus gloriosa guerra
Jamais gloriosa

Vitoriosa guerra
Jamais vitoriosa

A senda que à guerra conduz

À derrota conduz

(A guerra é sempre uma derrota)

sábado, junho 10, 2017

Da literatura e da arte que perverte, degrada e brutaliza

«Se é verdade que a literatura e a arte de qualidade podem educar a sensibilidade, engrandecer as nossas percepções, refinar o nosso discernimento moral, pelo mesmo raciocínio poderão também perverter, degradar e brutalizar a nossa imaginação e os nossos impulsos miméticos.»

George Steiner, “Homem Gato” in George Steiner em The New Yorker, Gradiva, 2010, pág. 265.

George Steiner

***

As palavras são importantes, para o bem e para o mal. A literatura e a arte também podem ser uma droga potente. Assim se explicam alguns dos seus efeitos nefastos sobre a nossa “imaginação e os nossos impulsos miméticos”. A citação de George Steiner enquadra-se num breve texto que escreveu sobre a obra de um escritor considerado maldito: Céline. Mas quanta literatura e arte (e a literatura é uma das artes) não existem por aí com esse efeito, embora se possa questionar a sua qualidade e até a sua categoria enquanto obra artística. (É isto literatura?) Livros que incendeiam as almas e o mundo, e que sem eles o mundo decerto seria um lugar bem melhor, sem ideologias e religiões incendiárias, e, consequentemente, sem tanto sofrimento. Mas para “educar a sensibilidade” e “engrandecer as nossas percepções” há um preço a pagar.

***

Também poderíamos dizer em nota de rodapé que não existem religiões nem ideologias incendiárias, o que existem são incendiários inspirados por religiões e ideologias.

sexta-feira, junho 09, 2017

Da lei inelutável da história

«Permanece uma lei inelutável da história não dar aos contemporâneos a possibilidade de reconhecer, logo desde os primeiros alvores, os grandes movimentos que marcam o período em que vivem.»  

    Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim, 2005, pág. 392

“E também não gosto…” Nietzsche não era anti-semita e por certo não gostaria de nazis

«Mas não gosto de todos esses pequenos percevejos, cuja ambição insaciável é a de libertar o cheiro infinito, até o infinito acabar por cheirar a percevejos; não gosto de túmulos redecorados que imitam a vida; não gosto dos homens cansados e gastos que se embrulham em sabedoria e têm uma visão «objectiva»; não gosto de agitadores que se vestem de heróis e disfarçam a velha cabeça de alho chocho com um boné mágico de ideias; não gosto de artistas ambiciosos que aspiram representar o ascético e o sacerdote e que, no fundo não passam de palhaços trágicos; e também não gosto desses especuladores mais recentes no idealismo, os anti-semitas que, a rolar os olhos num estilo cristão-ariano-filisteu, procuram despertar todos os elementos bovinos do povo através de um abuso exasperante dos meios mais vis de agitação e atitudes morais (que todo o tipo de fraude intelectual alcança algum grau de sucesso na Alemanha de hoje está relacionado com a estultificação inegável e já tangível da mente alemã, cuja causa procuro numa dieta extremamente exclusiva de jornais, políticas, cerveja e música wagneriana, incluindo o que esta dieta pressupõe: em primeiro lugar a constrição e vaidade características da nação, o princípio forte mais limitado de «Deutschland, Deutschland über alles», bem como a paralysis agitans das ideias modernas»).»

Friedrich Nietzsche, A Genealogia da Moral, Publicações Europa-América, 2002, pág. 134 (livro de bolso) (o destaque a negrito é nosso)

***

Que eram eles, esses nazis, senão “pequenos percevejos” que empestavam o mundo, querendo que o mundo cheirasse como eles. Não foi a sua ideologia um “túmulo redecorado de vida”? Não eram eles “agitadores vestidos de heróis” nas suas fardas e botas cardadas? Palhaços trágicos! Anti-semitas que despertaram os “elementos bovinos” do povo alemão, “através do abuso exasperante dos meios mais vis de agitação e atitudes morais”. Eis os homenzinhos das SS, nas suas primeiras “acções de combate”, quando saltavam dos seus camiõezinhos ao som de apitos e se punham a dar cacetadas nos sociais-democratas, como nos narra Stefan Zweig:

«Certo dia, quatro camiões chegaram de repente a grande velocidade a uma localidade fronteiriça onde se estava a realizar um comício pacífico dos social-democratas; cada camião vinha apinhado de jovens nacional-socialistas empunhando cacetes de borracha, e tal como me tinha sido dado ver, na Praça de São Marcos em Veneza, também estes aqui surpreenderam, pela sua rapidez, todos os presentes que foram apanhados desprevenidos. Tratou-se exactamente do mesmo método copiado dos fascistas, só que aprendido com férrea precisão militar e sistematicamente organizado até ao último pormenor, à maneira alemã. A um assobio, os homens das SS saltaram dos veículos à velocidade de um raio, bateram com os seus cacetes de borracha em quem lhes aparecia pela frente e, antes que a polícia pudesse intervir, ou os trabalhadores pudessem juntar-se, já eles tinham voltado a saltar para dentro dos camiões que partiram à desfilada.»

    Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim, 2005, pág. 394


***
Não, Nietzsche não era anti-semita, e por certo abominaria nazis. Parece tê-los cheirado com muitos anos de antecedência, muito antes dos contemporâneos daqueles se terem apercebido do que aí vinha.

quinta-feira, junho 08, 2017

"A Inglaterra está acabada"

Aqui.

Ironias da História

No século XVI os escravos negros eram desembarcados em Lisboa em condições desumanas. Depois de serem capturados nas selvas e traficados nos portos de África eram forçados a embarcar como animais selvagens. Chegavam “em condições terríveis «empilhados nos porões dos navios, vinte e cinco, trinta ou quarenta de cada vez, mal alimentados, acorrentados uns em cima dos outros». Modas luxuosas e loucas contaminavam a cidade: tornou-se comum ter um escravo negro em casa.” (Crowley, 2016, pág. 318). Nessa Era em que se dava início ao que viria a chamar-se comércio triangular, através do Atlântico, – armas por escravos e escravos por algodão, café ou açúcar – o Ocidente arrancava os negros do continente africano, com a colaboração de outros africanos, e arrastava-os para Europa e depois, mais tarde, directamente para as fazendas e plantações das Américas.

Hoje, volvidos cerca de 500 anos, ironia da História, são os negros que partem, expelidos pelo continente infernal, enfrentando todos os perigos da travessia dos desertos africanos e do Mar Mediterrâneo, também em condições desumanas, colocando em risco a própria vida e entregam-se nos braços do Ocidente, de livre vontade, prontos a abraçar qualquer trabalho mal pago, qualquer trabalho escravo, qualquer trabalho nas quintas da Europa, algumas exploradas por gente mafiosa e sem escrúpulos, quase como noutros tempos.

***

Fogem de outras guerras. O inferno é algures em África e o Diabo só pode morar ali. Só assim se explica a debandada dos africanos. Não são escravos, dirão, são homens. Contudo, o que dizer sobre o que se passa na Líbia em relação aos que chegam das terras a sul do Sara?

Vede Aqui!

Se não é escravatura, então o que é?

***
Referência

Crowley, Roger; Conquistadores, Como Portugal Criou o Primeiro Império Global, Editorial Presença, 2016, pág. 318.

quarta-feira, junho 07, 2017

Sobre bombas e cacetadas

Thomas Friedman
Thomas Friedman deve ser mesmo um bom opinion maker, pois muitos são os seus artigos de opinião no New York Times que ficam na memória ou na retina de quem os lê, e após uma só leitura. Um artigo que retive foi o das "nossas três bombas". De acordo com Thomas Friedman são três as bombas que a qualquer momento podem deflagrar e desestabilizar a nossa realidade: a bomba nuclear, a bomba da dívida e a bomba climática. O artigo é este: “Our Three Bombs”, New York Times, 7/10/2009

Desde que li o artigo em 2009, as bombas de Friedman nunca mais me saíram da cabeça. Inspirado por ele, reformulo aqui a lista de "bombas" que nos ameaçam, e são mais do que três, embora algumas, em parte, se possam sobrepor .

 Em primeiro lugar as três bombas de Friedman:

1.     A bomba da ameaça nuclear (a Guerra Fria terminou mas as bombas ainda existem assim como a ameaça da proliferação nuclear).
2.    A bomba da dívida (uma bomba com repercussões económicas e financeiras, também ela devastadora de vidas).
3.     A bomba climática (desencadeada pelo incremento do efeito de estufa com todas as suas consequências).

Às bombas de Friedman acrescento as seguintes (com algum risco de sobreposição parcial):

4.       A bomba demográfica (o crescimento demográfico no mundo é explosivo, acompanhado por uma crescente produção, consumo e pressão sobre os recursos naturais que são limitados face às ilimitadas necessidades humanas);
5.       A bomba ambiental (estamos a atravessar a 6ª extinção em massa, e não foi causada por um meteorito que colidiu com a Terra, a não ser que chamemos ao ser humano um “meteorito”. Bem vindos ao Antropoceno.);
6.       E a bomba terrorista (eles andam aí).

As consequências destas bombas podem ser devastadoras. Aliás já estão a sê-lo para muitos.

A estas bombas acrescentaria a bomba mais ameaçadora de todas: aquela que ninguém espera e que por isso não pode ser nomeada por ser uma bomba desconhecida. Não tenhamos a ilusão de que somos conhecedores de todas as ameaças que pairam sobre as nossas cabeças. A realidade cósmica pode surpreender-nos com uma verdade inesperada e, dessa forma, ameaçar a nossa existência. Como disse George Steiner uma vez e que já aqui foi citado:

Tenho uma certa imagem mental da verdade emboscada ao virar da esquina, à espera de que o homem se aproxime – e a preparar-se para lhe dar uma cacetada na cabeça.

George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Relógio D’Água, 2003. Pág. 80 e 81

Entretanto, carpe diem.

Baixem lá essa bosta, pá!


Quereis um desígnio? Baixem-na! Baixem a dívida pública! Libertem as futuras gerações desse fardo. A dívida pública excessiva será uma amarra que não as deixará navegar.

É certo que cresceu com a crise económica após 2009, pela integração de dívida privada, do crédito mal-parado e dos bancos resgatados pelos contribuintes. Grandes (alguns na verdade eram pequenos e foram tratados como grandes) demais para falirem.

Mas não nos deixemos iludir pelos que se ufanam de tão bons tempos que vivemos (dizem eles), do reduzido défice (o menor de sempre, dizem), da redução do desemprego (é bom ouvir) e do incipiente crescimento económico que o país manifesta agora, em grande parte, devido ao turismo e às actividades no seu entorno. 

Gostaria de ouvir os políticos, lá do alto dos seus palanques, perorarem sobre a dívida pública com o mesmo entusiasmo com que discursam acerca da redução do défice e do crescimento económico. Mas não é lá muito conveniente, pois não?!

Enquanto uma dívida pública desta magnitude perdurar não estaremos seguros, nem nós, nem os nossos filhos, nem os nosso netos. Eles é que vão pagar. Teremos então gerações de escravos. 

Passos tardam na relva

Passos tardam na relva
Entre o luar e o luar,
Tudo é eflúvio e selva.
Sente-se alguém passar.

Passa, pisando leve
O chão que o luar desmente,
Num pálido hausto leve
De pisar levemente.

É elfo, é gnomo, é fada
A forma que ninguém vê?
Lembro. não houve nada.
Sinto, e a saudade crê.


                             Fernando Pessoa (5-9-1933)


sábado, junho 03, 2017

A nova pimenta de Lisboa

Lisboa está a passar novamente por um momento de prosperidade e o turismo é a sua nova pimenta. Houve outros tempos assim, em que uma Lisboa cosmopolita fervilhava de gente vinda de todos os cantos, uns atraídos pelas riquezas da Índia e pelas novas descobertas do mundo, outros, forçados, vindos em levas de escravos, outros ainda para trabalhar na construção das naus e dos novos edifícios emblemáticos do período das Descobertas, muitos dos quais ainda resistem para deleite de turistas e Madonnas. Lisboa então maravilhava e prosperava. Mas infelizmente não há bem que nunca acabe. No caso actual os efeitos secundários deste “bem” já se começam a sentir. Lisboa está cara. Lisboa não é para lisboetas. O seu centro transformou-se num parque temático e os turistas, hoje, são mais que pombos. Os lisboetas mais cobiçosos e oportunistas e com alguma capacidade financeira, ou de improvisação, apressam-se em transformar os seus apartamentos, pequenos ou grandes, novos ou velhos, em unidades de alojamento para turistas, que o tempo é de vacas gordas. É fartar vilanagem.

A incursão nocturna na Feira do Livro de Lisboa e os escritores judeus

Ontem realizámos a nossa primeira incursão nocturna na Feira do Livro de Lisboa. Missão: localizar rapidamente e sem ajuda de qualquer mapa ou GPS o pavilhão da Bertrand e adquirir por uns módicos 12,25 € o famoso livro do Prémio Nobel da Economia, Daniel Kahneman, Pensar Depressa e Devagar (Temas e Debates/Círculo de Leitores), anunciado como o livro do dia da editora e por isso mais barato. Soubemo-lo pela consulta prévia do portal da Feira, na Internet (http://feiradolivrodelisboa.pt). Subimos impelidos pela fresca brisa nocturna a avenida da esquerda por entre os pavilhões das editoras, levados pelo instinto e pela memória de outras feiras, e fomos certeiros. A Bertrand estava no sítio habitual com vários pavilhões e um amplo balcão corrido, exclusivo para pagamentos, com várias caixas. Missão cumprida, deambulámos depois por entre os pavilhões das editoras até ao cume da Feira onde estacionava uma convidativa carripana de farturas (na verdade estas carripanas encontram-se estacionadas em vários cantos estratégicos, no sopé e no cume da Feira).

Em casa, abro o livro, dou um relance nas badanas, na capa e no verso: Daniel Kahneman é judeu - outro judeu. Salto a introdução (ao diabo com as introduções, deixo-as quase sempre para o fim) e começo a ler o primeiro capítulo. Descubro que o livro tem duas personagens – o Sistema 1 e o Sistema 2. Torço o nariz. Que raio de nomes. Mas rapidamente se tornou claro que poderá ser uma leitura interessante, ou então será mais um livro que irá repousar na anti-biblioteca. O Cisne Negro do Taleb, já lá está. Foi lido até pouco mais de metade com algum interesse, depois com alguma resistência e depois com alguma penosidade: logo naquelas páginas iniciais se percebe o leimotiv, o motto - “shit happens” – que é apresentado em looping, com inúmeros exemplos, quase até à exaustão. Destino: anti-biblioteca. A leitura será retomada noutro dia, talvez para as calendas. Espero que não ocorra o mesmo com o livro do Kahneman.

Afinal os judeus, por razões históricas, religiosas e civilizacionais, parece que se especializaram na lapidação de diamantes, na banca e na escrita – são um dos povos do Livro -, e na verdade escrevem obras cativantes como diamantes. Quase sem me dar conta dou com a casa repleta de livros de judeus, estando inclusivamente a ler em simultâneo várias obras deles: Homo Deus, do Yuval Harary (HarperCollins Publishers),  George Steiner em The New Yorker (o da Gradiva), e agora este do Kahneman.

Nas prateleiras, repousam livros de Hannah Arendt, Elias Canetti, Zygmunt Bauman, Eric Hobsbawn, Stefan Zweig, George Steiner, Tony Judt e se calhar outros com os quais ainda nem me deparei, também escritos por gente da diáspora. Outros li, como Primo Levi, que não queria deixar de referir aqui. A todos eles tiro o meu chapéu. Grande gente, grande povo e grande civilização que culturalmente nos enriquece a todos. Como foi possível termos expulsado outrora esta gente?

Bem hajam! (Ops, não é este o título da obra de outro judeu que também li recentemente?).

segunda-feira, maio 22, 2017

O Alien: Covenant e a Guerra dos Tronos

No Alien: Covenant decidiram os argumentistas, como agora é moda, aproveitar e misturar cenas similares a outras histórias que fizeram história: nele encontramos a indomável criatura que escapa ao seu criador, virando-se contra ele, coisa que já vem do tempo do Dr. Frankenstein e provavelmente antes disso, e que se repete vezes e vezes sem fim, do Robocop ao Terminator, antes e depois. Temos também um robot psicopata, qual Hannibal Lecter, que esconde as suas intenções assassinas sob uma face inexpressiva, quiçá até bondosa e uma falsa atitude protectora, até se revelar na sua extrema agressão. E uma cena no banho, à Psico, do velho Hitchcock, mas agora com um casal bem amparado em vez de uma menina desamparada e de grito estridente.

Argúcia do realizador: receitas antigas para novos proventos.

***

Já na Guerra dos Tronos a misturada é também evidente: velhas epopeias, ilíadas e odisseias, histórias medievais, as histórias fantásticas de Tolkien, com dragões e anões, mas agora condimentadas com erotismo e soft porn (receita das Sombras de Grey?), relações incestuosas, sadismo, zombies e grosserias. Enfim, um melting pot que vende.

domingo, maio 21, 2017

A realidade sofre

«When examining the history of any human network, it is therefore advisable to stop from time to time and look at things from the perspective of some real entity. How do you know if an entity is real? Very simple – just ask yourself, ‘Can it suffer?’ When people burn down the temple of Zeus, Zeus doesn’t suffer. When the euro loses its value, the euro doesn’t suffer. When a bank goes bankrupt, the bank doesn’t suffer. When a country suffers a defeat in war, the country doesn’t really suffer. It’s just a metaphor. In contrast, when a soldier is wounded in battle, he really does suffer. When a famished peasant has nothing to eat, she suffers. When a cow is separated from her newborn calf, she suffers. This is reality.»
Yuval Noah Harari


Yuval Noah Harari, Homo Deus, A Brief History of Tomorrow, HarperCollins Publishers, 2017

***

Yuval Harari, testa a realidade pelo sofrimento. Quer saber se uma entidade é real? É, se apresentar um potencial de sofrimento. Caso contrário estamos a falar de abstracções, metáforas, realidades intersubjectivas, porém, não da realidade objectiva. Essa sofre. É um pensamento com similitudes ao pensamento cartesiano. O “penso, logo existo” de Descartes é substituído pelo “sofro, logo existo”. No entanto Harari circunscreve esta ideia à história das redes de relações humanas - the history of any human network. Não aplicou o método de Descartes – a dúvida em relação à fiabilidade dos sentidos na leitura de toda realidade. Descartes viu-se então só com o seu pensamento e, como não podia duvidar que estava a pensar, deduziu que existia porque estava a pensar.

A realidade para Yuval Harari não é um pensamento, é um sentir. O sentimento vem antes do pensamento, e vem depois. Ou vem sem que exista pensamento algum.

Porém, cogitatio est. O pensamento existe. (Ortega y Gasset)

sexta-feira, maio 19, 2017

Como Portugal criou o primeiro império global

«Este uso do terror será grandioso para a obediência a Vossa Alteza sem necessidade de os conquistar»
Afonso de Albuquerque

Roger Crowley narra-nos a impressionante história da entrada dos portugueses no Índico no início do século XVI. Como Portugal criou o primeiro império global? Lido o livro, a resposta à questão é extremamente simples. Portugal criou o primeiro império global através do terror. Um terror que aplicou com persistência e tenacidade. Onde quer que surgissem no mar, as enfunadas velas brancas com a vermelha cruz de Cristo pintada, a população dos lugares costeiros debandava. Fomos terroristas, piratas e corsários e aplicámos todo o hardpower para dominar a costa do Malabar, da África Oriental, do Golfo Pérsico e mais além. Chegámos a penetrar no ardente Mar Vermelho e ousámos trepar e atacar as muralhas de Adém. Fomos longe demais. O espírito que nos movia no início do século XVI era ainda o da cruzada medieval. O objectivo era matar o Islão no berço, passar o mouro à espada, sem dó nem piedade ou esmagá-lo por todas formas possíveis e imaginárias. Queimámos, esquartejámos, empalámos, enforcámos, retalhámos, massacrámos, pilhámos…

Conta o narrador que após a tomada de Goa os rios que envolviam a ilha ficaram rubros do sangue dos muçulmanos apanhados na orgia saqueadora, e que nem os crocodilos “conseguiram lidar com a fartura”. “Foi uma limpeza” escreveu Afonso de Albuquerque a Dom Manuel I.

A história de Portugal no Índico não foi uma coisa bonita de se ver.

E no entanto, ficamos perplexos com tanta bravura e crueldade.

O livro já vai na 6ª edição.

domingo, maio 07, 2017

A derrota do fascismo de pantufas

Venceu a União Europeia, que precisa urgentemente de ser reformada nas suas políticas. Os eleitores franceses, e anteriormente os holandeses, não quiseram entrar em aventureirismos que os poderiam levar a um empobrecimento. Interiorizaram que a cisão com o projecto europeu, o fim do Euro e da União Europeia, teria um impacto muito negativo nas suas carteiras, com as desvalorizações das moedas nacionais que então criariam e, consequentemente, das suas poupanças. As derrotas de Le Pen, em França, e de Geert Wilders, na Holanda, devem-se às suas posições contra o projecto europeu e contra a União Europeia.

Os problemas que se colocam hoje ao mundo transcendem a capacidade dos velhos Estados-nação para os resolverem. São problemas transnacionais. São precisas organizações de alcance mais vasto (espaços políticos transnacionais), e reticulares (cidades globais funcionando em rede).

Mas o fascismo de pantufas continuará a andar por aí, pronto a ocupar o poder em França, se Macron e a União Europeia não estiverem à altura dos desafios (as migrações ilegais massivas, os refugiados, o terrorismo, os problemas ambientais e as alterações climáticas, e as ameaças geopolíticas que sopram de várias direcções).

segunda-feira, abril 17, 2017

The specifics


Now few biochemists and molecular biologists doubt that life can arise naturally from nonlife , even though the specifics are yet to be discovered.


Lawrence Kraus, A Universe from Nothing: Why There Is Something Rather Than Nothing, Simon & Schuster, 2012


***

Defende-se que pode haver criação sem criador e que a vida surgiu da não vida, mas o problema são os detalhes - "the specifics". Sempre os detalhes.

Mas afinal, o que se esconde nos detalhes? Deus, o Diabo, o Nada?

***

Edição portuguesa da Gradiva.

segunda-feira, abril 10, 2017

Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017)

Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017)

Hoje partiu uma das nossas melhores.
Enriqueceu-nos.

Por ela chegou até nós a Cultura Clássica, os mundos gregos e romanos. Muito antes de sabermos quem ela era, já tínhamos descuidadamente lido algumas das suas traduções entre as quais A República, de Platão, da Fundação Calouste Gulbenkian. Depois foi uma curiosa descoberta verificarmos, afinal, que o seu nome estava em muitas obras traduzidas e lidas.

É gratidão o que sentimos e lamentamos a sua partida. Foi (É) para nós a Tradutora e a Anfitriã desses mundos longevos.

Fica aqui a nossa humilde homenagem.

domingo, abril 02, 2017

Um mundo novo é inevitável

Todos sabemos que a lagarta se metamorfoseará numa borboleta. Mas a lagarta saberá isso? Esta é a pergunta que temos de fazer aos profetas da catástrofe. São como as lagartas no casulo da mundivisão da sua existência de lagarta, inconscientes da sua metamorfose iminente. São incapazes de distinguir entre a decadência e a mudança para uma coisa diferente. Veem a destruição do mundo e dos seus valores, embora não seja o mundo que está a perecer, mas a imagem que têm do mundo.

Ulrich Beck, A Metamorfose do Mundo, Edições 70, 2017, pág. 30

*** 

Um novo mundo é possível?! Que interessa isso agora? Agora é tarde. Os portões saíram dos seus gonzos. Um novo mundo é já inevitável! Quer queiramos quer não. A metamorfose do mundo está em curso. O que daí virá? Um admirável mundo novo? Talvez. Um mundo distópico? Não sabemos. Não será por certo um mundo em que os amanhãs cantam. Por certo será um mundo que não esperamos e do qual nem suspeitamos. Um mundo distante, muito distante desse mundo desejável pelos que proclamavam a possibilidade de um novo mundo, diferente do que nos impunha a globalização capitalista.

Ulrich Beck morreu. Só o soube, para grande surpresa minha, quando adquiri este seu novo livro póstumo: A Metamorfose do Mundo. Julgava-o vivo. Outro mestre que partiu, já há dois anos. Vive no entanto na sua obra e no pensamento que dela ecoa.

Até sempre Ulrich Beck.

***

Novas costas delinear-se-ão. Ilhas e porções de terra hoje emersas ficarão submersas, assim como as áreas baixas das cidades e as baixas das cidades. Populações procurarão refúgio noutros lugares, espécies perecerão com o desaparecimento dos seus habitats e tempestades cada vez mais violentas varrerão os céus, a terra e os mares. Vinhedos, oliveiras e palmeiras surgirão noutros horizontes, mais para o norte e mais para o sul e certos insectos transmissores de doenças alastrarão também, assim como os desertos que já cobrem um terço da superfície da área continental planetária. Oceanos nunca antes navegados por veleiros serão atravessados por esses barcos de lés a lés. Os corais branqueiam-se e morrem, como já se anuncia, e muitas espécies perecerão numa já anunciada sexta extinção em curso. Não obstante não é do Apocalipse segundo São João de que falamos. É de outra coisa. A metamorfose do mundo é também a nossa metamorfose, assim como a da nossa visão do mundo. Virá um Homem novo. Um cyborg (já há quem por aí ande, merecidamente feliz, com um novo coração artificial). Também isto é já parte do mundo novo.

domingo, março 12, 2017

Ninguém nasce revolucionário

El hombre nos es totalmente dueño de su destino. El hombre también es hijo de las circunstancias, de las dificultades, de la lucha. Los problemas lo van labrando como un torno labra un pedazo de metal. El hombre no nace revolucionário, me atrevo a decir.
Fidel Castro


in Ignacio Ramonet, Biografia a dos Voces, Penguin Random House Grupo Editorial, 2015

***

As primeiras palavras da longa entrevista de Fidel Castro a Ignacio Ramonet parecem o início de um poema épico: "O homem não é totalmente dono do seu destino".  Fidel adopta a terminologia do filósofo Ortega Y Gasset: o homem torna-se revolucionário, mas apenas se assim o forjarem o destino e as circunstâncias. 

Ninguém nasce revolucionário.

quinta-feira, março 09, 2017

Hoje está Levante

Lá, nas serras de xisto do Algarve,
Quando o Levante se erguia e soprava,
Os meus avós apuravam o ouvido
P’ra ouvir o mar rugir.
Ouvíamo-lo mesmo por trás das serras ondulantes
No nosso curto horizonte.

As serras que se acercavam,
e nos rodeavam,
nos cingiam,
e protegiam.

Ao Sul o mar rugia,
Sempre que o Levante se levantava.

(Consta que ainda assim é,
nos dias que correm)

sábado, fevereiro 04, 2017

Tempos de Neptuno

O Atlântico ruge
Estes tempos são os meus tempos
Tempos de tempestade

Tempos de lesa-majestade
Tempos de barco ao fundo
Tempos de fim do mundo
Tempos de Neptuno

Outros dias











© AMCD

Grey days

















© AMCD

Cabo Espichel ao fundo, 28 de Janeiro de 2017

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

É bem sabido que todas as vedações têm dois lados.

«É bem sabido que todas as vedações têm dois lados. Dividem um espaço uniforme em exterior e interior. Mas os que se encontram de um dos lados da vedação vêem o exterior onde os que estão do outro lado vêem o interior. Os residentes dos condomínios isolam-se por meio da sua vedação, do caos e da dureza que tornam a vida urbana desconcertante, desagradável e vagamente ameaçadora, e ficam reclusos num oásis de calma e segurança. Ao mesmo tempo, contudo, separam os outros dos lugares decentes e seguros, cujos valores estão dispostos a defender encarniçadamente, e abandonam-nos às mesmas ruas sórdidas e miseráveis de que fugiram sem olhar a despesas. A vedação separa o ghetto voluntário dos ricos e dos poderosos dos inumeráveis ghettos forçados em que os deserdados vivem. Para os que fazem parte do ghetto voluntário, os restantes ghettos são lugares onde nunca porão os pés. Para os habitantes dos ghettos involuntários, em contrapartida, o território a que estão confinados (ao verem-se excluídos de todos os outros lugares) é um espaço do qual se encontram proibidos de sair.»

Zygmunt Baumman, Confiança e Medo na Cidade, Relógio D’Água, 2006

domingo, janeiro 29, 2017

Poema de Chico Buarque

Cotidiano

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão

Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Chico Buarque, 1984

domingo, janeiro 22, 2017

Do sistema educativo trumpeano

Resultado de imagem para Trump at the trump-inaugural-addressDisse Trump no Discurso de Tomada de Posse referindo-se ao sistema educativo americano:

...an education system flush with cash, but which leaves our young and beautiful students deprived of knowledge;

O que é verdade: a eleição de Trump só se explica pela falta de educação de muitos dos seus concidadãos. Por outras palavras: só mal-educados votam num mal-educado.

Mas o dito também faz adivinhar a intenção de privatização do sistema educativo público daquele país.

Etiquetas